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Tremores brutamontes me acordaram e, sem me darem tempo nem mesmo de focalizar na mente onde eu estava e, pior, a questão-mor dos seres vivos, quem era eu, me tiraram de minha casa, que se localizava um galho bem alto da árvore mais bela da ala noroeste da mata. No chão, coração batucando alucinado dentro de meu peito, minutos-séculos se passaram para eu notar que minha castanheira estava destruída, morta, derrubada no chão, ironicamente parecendo repousada, se espreguiçando ao sol.
Andando ao redor pra entender as causas do acontecido, esbarrei-me com algo de couro, que se estendia para cima até certo ponto. A coisa se mexeu, e então eu percebi que era um ser. Tinha a pele lisa, mas, em compensação, o corpo recoberto com peles de cores variadas. Andava em dois pés e empunhava em mãos um monstro que emitia um barulho tão assustador, tão alto, que meus ouvidos só o notaram quando ele cessou, dando ao meu espírito, finalmente, paz, e fazendo o monstro, nas mãos daquela criatura enorme, parar de tremer.
Me escondi atrás do defunto de minha casa, cuidando pra esconder minha cauda peluda de forma que o gigante não me visse. Ele sentou-se numa pedra, enfiou a mão dentro de uma bolsa de sua pele colorida externa (que imaginei ser removível) e puxou alguns objetos. Manejando-os, de repente surgiu fogo, que ele encostou num pauzinho liso branco que ele pôs na boca. Vez ou outra o pauzinho brilhava vermelho como fogo, e da boca do gigante saía fumaça fedorenta. Entediado que estava, a criatura deixou-me entediado, e eu estava pra ir embora, desolado, procurar uma nova casa quando ele se moveu, pegou uma coisa quadrada preta que estava no chão, e girando uma coisinha redonda que ficava grudada nessa preta, liberou som. Inicialmente, um chiado horrível, mas logo tudo organizou-se e pareceu-me que eu estava delirando.
Da caixinha preta saía um som divino, que, acreditem, me fez sentir a luz do sol com os ouvidos. Meu corpo se retesou com a descoberta, e logo relaxou com os outros sons que vieram. O som do verde, o som da cor do vento, o som do cheiro da floresta à noite, o som de Deus, o som de minha infância. Os sons cadenciados me derreteram no ar, os sons finos e grossos se fundiam em minha cabeça e eu notei o som de minha cor. O som de mim mesmo. Eu, então, percebi que eu era som, e voei por aí, nunca mais voltando a ser corpóreo como antes. Eu morri quando virei o som do amor.
Luciano J. Fernandes
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012
terça-feira, 11 de setembro de 2012
OS ONZE MANDAMENTOS
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1º - Amar a Deus sobre todas as coisas.
2º - Não usar o nome de Deus em vão.
3º - Lembra-te do dia de Sábado Domingo para o santificar.
4º - Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
5º - Não matarás.
6º - Guardar castidade nas palavras e nas obras.
7º - Não roube. (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
8º - Não levantar falsos testemunhos.
9º - Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos (ou: não cobiçarás a mulher do próximo)
10º- Não cobiçar as coisas do outro.
11º- Não obedecer nenhum mandamento se não souber sua causa ou finalidade.
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1º - Amar a Deus sobre todas as coisas.
2º - Não usar o nome de Deus em vão.
3º - Lembra-te do dia de Sábado Domingo para o santificar.
4º - Honrar pai e mãe (e os outros legítimos superiores).
5º - Não matarás.
6º - Guardar castidade nas palavras e nas obras.
7º - Não roube. (nem injustamente reter ou danificar os bens do próximo).
8º - Não levantar falsos testemunhos.
9º - Guardar castidade nos pensamentos e nos desejos (ou: não cobiçarás a mulher do próximo)
10º- Não cobiçar as coisas do outro.
11º- Não obedecer nenhum mandamento se não souber sua causa ou finalidade.
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terça-feira, 13 de março de 2012
Se os tubarões fossem homens
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por Bertold Brecht
Se os tubarões fossem homens, perguntou a filha de sua senhoria ao senhor K., seriam eles mais amáveis para com os peixinhos?
Certamente, respondeu o Sr. K. Se os tubarões fossem homens, construiriam no mar grandes gaiolas para os peixes pequenos, com todo tipo de alimento, tanto animal quanto vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adoptariam todas as medidas sanitárias adequadas. Se, por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, ser-lhe-ia imediatamente aplicado um curativo para que não morresse antes do tempo.
Para que os peixinhos não ficassem melancólicos haveria grandes festas aquáticas de vez em quando, pois os peixinhos alegres têm melhor sabor do que os tristes. Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nessas escolas os peixinhos aprenderiam como nadar alegremente em direcção à goela dos tubarões. Precisariam saber geografia, por exemplo, para localizar os grandes tubarões que vagueiam descansadamente pelo mar.
O mais importante seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. Eles seriam informados de que nada existe de mais belo e mais sublime do que um peixinho que se sacrifica contente, e que todos deveriam crer nos tubarões, sobretudo quando dissessem que cuidam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria assegurado se estudassem docilmente. Acima de tudo, os peixinhos deveriam rejeitar toda tendência baixa, materialista, egoísta e marxista, e denunciar imediatamente aos tubarões aqueles que apresentassem tais tendências.
Se os tubarões fossem homens, naturalmente fariam guerras entre si, para conquistar gaiolas e peixinhos estrangeiros. Nessas guerras eles fariam lutar os seus peixinhos, e lhes ensinariam que há uma enorme diferença entre eles e os peixinhos dos outros tubarões. Os peixinhos, proclamariam, são notoriamente mudos, mas silenciam em línguas diferentes, e por isso não se podem entender entre si. Cada peixinho que matasse alguns outros na guerra, os inimigos que silenciam em outra língua, seria condecorado com uma pequena medalha de sargaço e receberia uma comenda de herói.
Se os tubarões fossem homens também haveria arte entre eles, naturalmente. Haveria belos quadros, representando os dentes dos tubarões em cores magníficas, e as suas goelas como jardins onde se brinca deliciosamente. Os teatros do fundo do mar mostrariam valorosos peixinhos a nadarem com entusiasmo rumo às gargantas dos tubarões. E a música seria tão bela que, sob os seus acordes, todos os peixinhos, como orquestra afinada, a sonhar, embalados nos pensamentos mais sublimes, precipitar-se-iam nas goelas dos tubarões.
Também não faltaria uma religião, se os tubarões fossem homens. Ela ensinaria que a verdadeira vida dos peixinhos começa no paraíso, ou seja, na barriga dos tubarões.
Se os tubarões fossem homens também acabaria a ideia de que todos os peixinhos são iguais entre si. Alguns deles se tornariam funcionários e seriam colocados acima dos outros. Aqueles ligeiramente maiores até poderiam comer os menores. Isso seria agradável para os tubarões, pois eles, mais frequentemente, teriam bocados maiores para comer. E os peixinhos maiores detentores de cargos, cuidariam da ordem interna entre os peixinhos, tornando-se professores, oficiais, polícias, construtores de gaiolas, etc.
Em suma, se os tubarões fossem homens haveria uma civilização no mar.
Retirado dAQUI
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quarta-feira, 7 de março de 2012
MANIFESTO PELA VADIAGEM
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Subiu no banquinho, pegou o microfone, limpou a garganta.
OK.
O que é que eu posso dizer aqui?Eu...Meu deus. Sei lá. Não sei.
Tinha uma época que eu era muito bom nisso.
Se as pessoas me deixassem eu ficava aqui falando, falando... Sem parar. E, entendam, geralmente elas deixavam!
É claro que fazem muitos anos que isso não acontece, eu era jovem e esfuzinhava muitas coisas na cabeça.
Hoje eu to sem criatividade. Nem sei se a palavra "esfuzinhar" existe.
O que será que mudou em mim?
Não sei, deve ter sido o trabalho.
Porque o trabalho, não sei se dignifica... Duvido muito disso, na verdade... Mas acho que MODIFICA, com certeza.
-pausa
Pois ouvi quem tem ouvidos... Professai quem tem boca!
TRABALHO É COISA DE QUEM NÃO TEM O QUE FAZER!
Não me chamem de messias, ou de "o escolhido", muitos vieram antes de mim e traziam a mesma palavra.
O Profeta Madruga proclamava aos ventos em alto e bom som: "Não existe trabalho ruim. O ruim é ter de trabalhar". Mas por sua veia cômica foi deixado de lado, e esquecido pelos seus contemporâneos e pelos povos até o dia de hoje. Mas reafirmo aqui toda a sua sapiência afirmando que o trabalho transforma os cães que são os homens nos lobos hobbesianos!
Não é preciso Matrix alguma pra nos sugar e nos transformar em pilhas que alimentam uma máquina sem propósito a qual não enxergamos:
Já vivemos isso no dia-a-dia, doando mais de 50% do nosso tempo desperto às realizações dessa superprodução do capital!
Será que já não provamos que a superprodução não vai nos levar a lugar algum que não seja a destruição de rios, ecossistemas, litosfera, hidrosfera, ionosfera, estratosfera, biosfera, e, no fim, da fera que se tornou o próprio homem?
O acúmulo de capital leva à loucura, vivamos o mundo agora. A produção de mercadoria leva à destruição, pensemos no mundo de amanhã.
O tempo nos açoita enquanto deveria nos afagar. Nossos irmãos nos ameaçam quando nos deveriam defender. Acumulamos enquanto deveríamos compartilhar.
Já almaldiçoei muito a vida, até ter a noção de que ela é bonita, é bonita como diz o poeta. Somos nós, os seres humanos, temos a incapacidade de vê-la assim, é por estarmos usando nossas lentes de contato sujas de lama por fuçar na lama.
Pois lavem o rosto e acordem!
A terra é fértil e temos o know-how para alimentar a todos! O amor gera amor, a compaixão gera compaixão, tolerância gera tolerância. Chamem-me de louco, mas não de tolo: acreditar numa mudança é melhor do que aceitar-nos destruídos, ciscando na merda e engalfinhando-nos pelo milho.
Aos que me perguntarem qual o sentido da vida, respondo: é da direita para a esquerda, meu caro.
-pausa
Cansei. Qual o preço da cerveja aqui mesmo?
Luciano J. Fernandes
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
O ANO DA TEMPESTADE
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http://hiperlinque.tumblr.com/post/16862694692/censura-jpg"2012 é o ano da tempestade.
"O Pirate Bay irá chegar à marca de 9 anos. Experienciando incursões, espionagem e ameaças de morte, nós estamos aqui. Nós atravessamos o inferno e voltamos e isso nos fez mais fortes que nunca.
"As pessoas que rodam o site mudaram durante os anos. Nenhum ser humano em plena consciência iria aguentar esse tipo de pressão por 8 anos seguidos. Um hobby insano que toma tempo de nossas famílias, nosso trabalho (foi mal, chefe) e nossos estudos.
"O que nos une é a forte crença que o que fazemos é bom. Que é algo que um dia contaremos aos nossos netos com orgulho. Pessoas do mundo todo confirmam isso. Nós lemos depoimentos de pessoas na Síria ansiando liberdade e nos agradecendo pelo que fornecemos. Recebemos mais de 100 visitas diárias da Coréia do Norte e nós temos certeza de que eles realmente precisam. Se existe alguma coisa que irá trazer paz para esse mundo é a compreensão e apreciação do seu companheiro humano. Que melhor forma de fazer isso que com essa vasta livraria de cultura?
"Dito isso, nós ouvimos notícias de que nossos antigos administradores receberam um veredito na Suécia. Nossos três amigos e irmãos de sangue foram sentenciados a prisão. Isso pode soar pior do que realmente é. Já que nenhum está mais vivendo na Suécia, eles não irão para a prisão. Eles são tão livres hoje quanto eram ontem.
"Mas o que nos enfurece a alma é que o sistema, o império, os governos ainda são permitidos a mandar em você e em nós com uma lei mais louca do que a outra. Você acha que eles irão parar com SOPA/ACTA/PIPA? Eles não vão. Porque você não vai parar de compartilhar esses arquivos. Porque nós não vamos ficar quietos. Porque ninguém pode voltar no tempo. Juntos, nós somos o ferro que se fortalece a cada pancada.
"Esse é o ano da tempestade, os fortes construirão moinhos de vento e os fracos irão se esconder em abrigos. Então flexione seus músculos, companheiros piratas, e dêem poder a todos nós! Construam mais sites! Mais redes! Mais protocolos! Grite mais alto que nunca e vamos levar tudo isso pro próximo nível!".
Traduzido dAQUI.
LEIA TAMBÉM:
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terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Pare. Atenção. Siga.
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(Texto originalmente publicado pelos 10Temidos)
http://hiperlinque.tumblr.com/post/16844587333/bom-trabalho-querido-jpg
Enfie a chave na fechadura. Isso. Agora abra a porta. Antes de sair, não se esqueça de verificar se não está sem roupas, como aconteceu naquele sonho que te deixou até hoje na paranóia. Verifique se você não esqueceu a chave do lado de dentro, se você não saiu sem carteira de identidade, sem dinheiro, sem o celular, sem o cartão do plano de saúde. Verifique se você não está esquecendo de verificar nada. Note que você sente como se algo estivesse faltando.
Aperte o botão do elevador, fique angustiado com a demora dele. Depressa, depressa. Bata os pés no chão impacientemente. Abra a porta do cubículo de metal, entre, dê bom dia para vizinho do oitocentos e dois, mas não puxe conversa com ele, ele pode te achar mala. Faça cara de pessoa séria, que durante a juventude nunca acordou de ressaca num meio-dia de quinta-feira, na praia, com um homem desconhecido inconsciente ao lado, e cercado de gente que te olha torto, você sem lembrar de como tinha ido parar ali. Antes de sair do elevador verifique no espelho a roupa, os dentes, se irrite com os fios de cabelo brancos vencendo a batalha contra a tintura. Prenda a barriga.
Encare o sol, sinta o puta calor, xingue a mãe de alguém (mas sem ninguém – especialmente o tal filho da mãe em questão – perceber). Ande rápido a ponto de não chegar lá e o banco estar fechado, mas não tão rápido a ponto de parecer louco. Não se esbarre com pessoas na rua, não pise no pé de ninguém, isso, não encare ninguém, não fale com desconhecidos, olhe para os dois lados antes de atravessar, espere o sinal, não respire fumaça do escapamento dos ônibus, sinta o calor, pragueje, cuidado com os ladrões, nunca, nunca, nunca converse com um desconhecido sem ninguém a mais além de vocês dois na rua.
Ao entrar no banco, faça cara de quem é rico. Cuidado na hora de retirar tudo do bolso pra fazer o depósito, pra que nada caia no chão e se perca ou seja embolsado por algum esperto. Extrema atenção ao preencher o envelope pra não colocar nenhuma informação errada. Não aceite orientação de estranhos, não forneça a sua senha a ninguém. Entre na fila, atenção para não tentarem entrar na sua frente. Não olhe para o monitor do caixa eletrônico quando os outros estiverem usando. Não mantenha nenhuma forma de comunicação não referencial com qualquer um no recinto. Aguarde sua vez. Fique entre as linhas amarelas pintadas no chão, respeite o seu harmonioso movimento de zigue-zague. Agora é sua vez, ande. Isso. Muito bem. Deposite o dinheiro. Rápido, o tempo vai acabar, três vezes e eles cancelam o cartão. Saída. Faça cara de quem não tem dinheiro, quando chegar lá fora. Sabe-se que lá tem algum ladrão à espreita.
Voltando pra casa, ignore sua fome: não coma porcarias na rua. Passe na frente da casa de seu amigo e nem sequer pense em entrar, você está até o pescoço de coisas para fazer. Não olhe pra aquela pessoa gostosa vindo lá de mãos dadas com alguém, não olhe. Não olhe. Não olhe. Não olhe. Olha o sinal, cuidado. Isso. Sinta que a temperatura dentro de sua roupa está maior que fora, veja que sua roupa está molhada de suor, grudando no corpo, duas manchas de suor nos seus sovacos, reze por uma chuva redentora que não virá. Você não tem dinheiro trocado algum no bolso, finja que não viu o mendigo. Encare o porteiro de seu prédio pra prová-lo de que você é você. Agüente a tortura de ter que manter-se de pé ao esperar o elevador. Reze pra que ninguém entre com você naquele forno apertado.
Enfie a chave na fechadura. Isso. Bonitinho. Agora abra a porta com cara de sobrevivente de guerra, feche a porta quando entrar, passe o trinco – não se esqueça de passar duas vezes – passe o pega ladrão. Se jogue no sofá, nojo do próprio corpo – o suficiente para precisar de um banho, cansaço o suficiente pra não ter coragem de levantar. Pense no dia de afazeres de amanhã. Note que você, por mais que fique em casa, no sofá, na frente do ventilador, na frente da tevê, nunca chega a descansar totalmente.
Não me pergunte por que. Não se pergunte o porquê.
Luciano J. Fernandes
Aperte o botão do elevador, fique angustiado com a demora dele. Depressa, depressa. Bata os pés no chão impacientemente. Abra a porta do cubículo de metal, entre, dê bom dia para vizinho do oitocentos e dois, mas não puxe conversa com ele, ele pode te achar mala. Faça cara de pessoa séria, que durante a juventude nunca acordou de ressaca num meio-dia de quinta-feira, na praia, com um homem desconhecido inconsciente ao lado, e cercado de gente que te olha torto, você sem lembrar de como tinha ido parar ali. Antes de sair do elevador verifique no espelho a roupa, os dentes, se irrite com os fios de cabelo brancos vencendo a batalha contra a tintura. Prenda a barriga.
Encare o sol, sinta o puta calor, xingue a mãe de alguém (mas sem ninguém – especialmente o tal filho da mãe em questão – perceber). Ande rápido a ponto de não chegar lá e o banco estar fechado, mas não tão rápido a ponto de parecer louco. Não se esbarre com pessoas na rua, não pise no pé de ninguém, isso, não encare ninguém, não fale com desconhecidos, olhe para os dois lados antes de atravessar, espere o sinal, não respire fumaça do escapamento dos ônibus, sinta o calor, pragueje, cuidado com os ladrões, nunca, nunca, nunca converse com um desconhecido sem ninguém a mais além de vocês dois na rua.
Ao entrar no banco, faça cara de quem é rico. Cuidado na hora de retirar tudo do bolso pra fazer o depósito, pra que nada caia no chão e se perca ou seja embolsado por algum esperto. Extrema atenção ao preencher o envelope pra não colocar nenhuma informação errada. Não aceite orientação de estranhos, não forneça a sua senha a ninguém. Entre na fila, atenção para não tentarem entrar na sua frente. Não olhe para o monitor do caixa eletrônico quando os outros estiverem usando. Não mantenha nenhuma forma de comunicação não referencial com qualquer um no recinto. Aguarde sua vez. Fique entre as linhas amarelas pintadas no chão, respeite o seu harmonioso movimento de zigue-zague. Agora é sua vez, ande. Isso. Muito bem. Deposite o dinheiro. Rápido, o tempo vai acabar, três vezes e eles cancelam o cartão. Saída. Faça cara de quem não tem dinheiro, quando chegar lá fora. Sabe-se que lá tem algum ladrão à espreita.
Voltando pra casa, ignore sua fome: não coma porcarias na rua. Passe na frente da casa de seu amigo e nem sequer pense em entrar, você está até o pescoço de coisas para fazer. Não olhe pra aquela pessoa gostosa vindo lá de mãos dadas com alguém, não olhe. Não olhe. Não olhe. Não olhe. Olha o sinal, cuidado. Isso. Sinta que a temperatura dentro de sua roupa está maior que fora, veja que sua roupa está molhada de suor, grudando no corpo, duas manchas de suor nos seus sovacos, reze por uma chuva redentora que não virá. Você não tem dinheiro trocado algum no bolso, finja que não viu o mendigo. Encare o porteiro de seu prédio pra prová-lo de que você é você. Agüente a tortura de ter que manter-se de pé ao esperar o elevador. Reze pra que ninguém entre com você naquele forno apertado.
Enfie a chave na fechadura. Isso. Bonitinho. Agora abra a porta com cara de sobrevivente de guerra, feche a porta quando entrar, passe o trinco – não se esqueça de passar duas vezes – passe o pega ladrão. Se jogue no sofá, nojo do próprio corpo – o suficiente para precisar de um banho, cansaço o suficiente pra não ter coragem de levantar. Pense no dia de afazeres de amanhã. Note que você, por mais que fique em casa, no sofá, na frente do ventilador, na frente da tevê, nunca chega a descansar totalmente.
Não me pergunte por que. Não se pergunte o porquê.
Luciano J. Fernandes
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