sábado, 17 de dezembro de 2011

PROCRASTINAÇÃO

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Depois da sesta eu lavo os pratos. E empurrando com a barriga, a pilha aumentou. Os insetos agora reinavam e faziam sua própria civilização.
É claro que não só na cozinha, mas em todos os cômodos se via o acúmulo de informações subestimadas, atividades adiadas, lixo. No seu cabelo, animais mortos se alojavam e se reproduziam. Mas nada, nada se compara à revolução biológica que estava acontecendo na cozinha.
Certo dia, ele tenta entrar lá:
- Quem é você, e o que faz aqui? - disse o monstro.
- Sou vosso pai, sou o Deus que vos criou - respondeu, sagaz que era.
- Com que finalidade me criou, ó, Deus do lodo?
- Criei-vos não com alguma finalidade, porque as finalidades de nada adiantam, já o que realmente importa é o produto. Criei-vos e pronto, sois meu filho, minha criação, e deveis-me subserviência.
Das tubulações de esgoto ouvia-se o gorgolejar da lama fétida, fervendo como o sangue às veias de um ser humano qualquer. O monstro gargalhou sinceramente, e de sua boca caíam ao chão dezenas de baratas enormes.
- Bem vejo, Deus do lodo, que és um tolo! O Deus serve para reger o universo, comandar o que deve ser comandado, efetuar as regras, o Deus serve para servir ao universo, e dedica a sua existência a ele!
Os tentáculos do monstro envolveram o rapaz e começaram a puxá-lo. Seus braços fracotes e os esquilos mortos do seu cabelo tentavam impedir que ele fose deglutido, mas foi tudo em vão.
Absorvido pelo universo que ele mesmo criou, foi condenado a viver toda a eternidade com os monstros de lama cujas vidas, os sonhos, os desejos de sujeira que até então, ele não fazia noção de que tinham sequer surgido.

Luciano J. Fernandes

domingo, 11 de dezembro de 2011

O "Buy-Nothing Christmas" e o Complexo Marta-Alex.

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É quase contra as leis da física. É ilógico, irracionalizável, impensável.
Fim de ano é época de stress. O fim do semestre e o término da faculdade, do trabalho, da escola, e as respectivas correrias para conseguirmos cumprir as datas não se comparam ao fim do ano.

- Corre, Marta, o shopping vai ficar cheio demais, a gente ainda tem que fazer a feira da ceia!
- Calma, os meninos ainda não estão prontos!

Natal é o inferno na terra. Já dentro do carro, você percebe que todo mundo deixou pra comprar o presente no mesmo dia que você. O trânsito é caótico, e você já sabia disso, preparado que é trouxe O Senhor dos Anéis 1, 2, e 3, versão estendida, pra assistir no caminho, mas a viagem foi ainda mais longa do que o esperado, deu pra reassistir metade do primeiro filme só dentro do estacionamento, procurando uma vaga.
Dentro do shopping, parece que a cidade inteira está se refugiando da guerra nuclear que está acontecendo lá fora. Correm de um lado pro outro, tensos, cheios de sacola nas mãos, carregando crianças que puxam sempre pra direção contrária que se quer ir. Neste natal, faça-me um favor: pare vinte minutos sentado (se você achar algum lugar pra sentar) num shopping e observe os rostos das pessoas no 24 de dezembro.

O pior é a decoração de natal. Ninguém aguenta mais ver, a decoração está lá desde outubro. Árvores de oito metros de altura, a mesma do ano passado, luzinhas piscando, e piscando, informação, informação, informação, stress, stress, compra, compra compracompracompra. Um papai noel que se interessa mais pelas assistentes gostosas que pelas crianças. Vai dizer que você nunca se flagrou pensando "nossa, a barba desse é de verdade!", ou "ele é gordo de verdade!" ou "ele é branco de verdade!"? Sempre imagino esse pobre desempregado em pleno verão com roupa vermelha de pêlos, gorro e botas vendendo picolé na praia, não sei porquê. Aquelas renas, ursinhos polares, que ficam com aquele movimento macabro parecendo um animal empalhado zumbi. Olha pra um lado... te encara... coça a barriga ("vou te comer, vou te comer") e depois olha pro outro lado. E neve falsa. NEVE FALSA. Algodão. Polietileno. Fibra de vidro. Isopor.

A neve, explico: A Globo preparou muito bem preparado uma receita de filmes, passando por "Esqueceram de mim" e aquele em que Schwarzenegger é um super herói de brinquedo, todos filmes, claro, americanos, pra o seu filho ficar no quilo e te pedir o presente mais caro de todos. E você, numa urgência de não ser a mãe negligente que você é o ano todo, tenta comprar o que for para conquistar o amor do seu filho, e, talvez, a felicidade dele e memórias agradáveis da relação linda entre vocês dois. Só que o menino não vai ligar uma coisa com a outra se ao chegar no shopping tiver jacarandás de plástico, rios artificiais, sprinklers ligados pra simular uma chuva tropical.

- Amor, eu vou pra um lado, você vai pro outro. Você compra os presentes dos homens e das crianças, e eu compro pras mulheres.
- Tá. Não vai estourar seu cartão de crédito.
- Alex, cala a boca.
- Depois não diz que não avisei, ano passado...
- Não vai esquecer da merda do amigo secreto!
- Porra, ainda tem isso.
- Tchau, não demora.
- Tá.
- Mãe, eu quero o boneco do Ben 10.

A estratégia de se separar para que tudo seja mais rápido é velha, e funciona até o ponto em que você não acha nada interessante pra comprar e precisa ligar pro celular do outro pedir ajuda.

- Cheguei, que foi?
- Desculpa, mas é que não consigo me decidir o que comprar pra Tia Graça e Tia Marli. Ia comprar um presente pra cada uma, mas vi esse joguinho de xícaras aqui, tá baratinho. Elas moram juntas, é bom que não precisa comprar dois, o que você acha?
- Amor, suas tias não tomam café!
- Nunca comprei nada pra elas que elas gostassem, não é hoje que eu vou conseguir. Pelo menos eu dei o presente, se elas não gostaram, o problema não é meu.
- E pra que diabos você me chamou aqui, então?

A loja tá foda, e aí vocês se acotovelam. Tem cinco pessoas querendo o joguinho de xícaras pras tias que moram juntas e não tomam café, mas só tem três conjuntinhos na loja. Você precisa sacudir um vendedor pra que ele dê atenção à sua pergunta de se tem garantia. Você enfrenta uma fila maior que a do estacionamento. Você se questiona. Você se pergunta, porque, meu deus?! Promessa de natal é pior que as de fim de ano, e você vai "Ano que vem venho mais cedo", "Ano que vem não compro nada pra ninguém", "Ano que vem fico em casa",  "Ano que vem compro um cd do Caetano Veloso pra cada um e fica tudo bem", e sua vida passa diante de seus olhos. E quando finalmente a fila termina, o acotovelamento parece estar acabando, eu vou embora, graças a deus, você se lembra da pergunta tenebrosa:

- Embala pra presente?
- Não.

Puta que pariu.
E a coisa que mais odeio no natal não é o consumismo. Não é o materialismo das relações humanas. Não é o protocolo de ter que dar, correndo o risco de fofocas e do fim da amizade caso contário, um presente pras pessoas, mesmo que elas não gostem. Não é o empurra-empurra. Não é receber presente que eu não gosto. É uma coisa que, cientificamente comprovado, aumenta em 54,32% o nível de stress e em 12,253333[...] o número de suicídios na época do natal: Músicas natalinas. É contra todas as probabilidades um estilo musical cuja MELHOR dentre todas as músicas da categoria seja Simone cantando "Então é natal, o ano novo também". Mas natal é uma época mágica, tudo é possível.

É quase contra as leis da física. É ilógico, irracionalizável, impensável. Mesmo com tudo isso, as repetidas experiências traumatizantes (o que vocês falam disso agora, behavioristas?), as pessoas ainda assim se prezam ao trabalho ridículo de aceitar isso. Centenas de milhares de imbecis fazendo algo que não querem fazer, que não gostam de fazer, que não têm dinheiro pra fazer, que os faz mal.

Toma vergonha na cara, pega essa grana, e vai com sua família prum resort numa praia. Junta amigos, colegas de trabalho, familiares, e vão comprar presentes pra crianças carentes. Ou vá pra casa de sua família e combine de ninguém comprar merda nanhuma, mesmo. Acredite, sua tia não vai te amar mais só porque você comprou a coleção millenium do Belchior.
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Chama-se "Buy-Nothing Christmas", e começou em 1968 nos Estados Unidos com a publicação de um artigo de Ellie Clark e sua família, contra o materialismo da data. Recentemente a idéia foi incorporada pela ong anti-consumista Adbusters, tem site próprio e cresce mais a cada dia. Não temos nada parecido na língua portuguesa, mas nunca é tarde pra começar.
Termino o texto sobre o natal com uma piada plastificada, quase slogan de comercial.
Vamos comprar essa idéia? =D

http://www.buynothingchristmas.org/



Por
Luciano J. Fernandes

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

POCAHONTAS vs AVATAR

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Dysney's James Cameron's
Pocahontas Avatar

In 1607 2154 um navio levando John Smith ake Sully chega ao exuberante "novo mundo" América do Norte Pandora. Os colonos estão extraindo ouro unobtanium; sob a supervisão do Governador Ratcliffe Coronel Quarytch. John Smith Jake Sully começa a explorar o novo território, e encontra Pocahontas Neytiri. No início ela desconfia dele, mas uma mensagem da Avó Salgueiro Árvore das Almas a ajuda a superar seu receio. Os dois começam a passar certo tempo juntos, Pocahontas Neytiri ajuda John Jake a entender que toda forma de vida é valiosa, e como toda a natureza está conectada no ciclo da vida. Além disso ela o ensina a caçar, plantar domar dragões, e sobre a sua cultura. Nós descobrimos que seu pai é o Chefe Powhatan Eyutucan, e que ela está prometida em casamento a Kocoum Tsu'tei, um grande guerreiro, mas homem sério, a quem Pocahontas Neytiri não deseja. Com o passar do tempo, John Jake e Pocahontas Neytiri descobrem que se amam. De volta aos domínios dos colonos os homens, que acreditam que os nativos são selvagens, planejam atacá-los pelo ouro unobtanium deles. Kocoum Tsu'tei tenta matar, por ciúmes, John Jake, mas ele mais tarde é morto pelos colonizadores. Enquanto os colonizadores preparam-se para atacar, John Jake é culpado pelos nativos, e é condenado à morte. Pouco antes da execução, os colonizadores chegam. O chefe Powhatan Eyutucan é quase morto, e John Jake é atacado pelo Governador Ratcliffe Coronel Quarytch, que é posto a julgamento alvejado de flechas, yeah. Pocahontas Neytiri arrisca sua vida para salvar John Jake. John Jake e Pocahontas Neytiri finalmente podem ficar juntos, e suas culturas resolvem suas diferenças.

Traduzido daqui

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

 

por John Perry Barlow <barlow@eff.org>

Governos do Mundo Industrial, seus gigantes desgastados de carne e metal, eu venho do Ciberespaço, o novo lar da Mente. Em prol do futuro, eu peço a voçês do passado que nos deixe em paz. Vocês não são bem-vindos entre nós. Vocês não têm nenhuma soberania onde nós nos agregamos.

Nós não temos governos eleitos, nem gostaríamos de ter um, então os escrevo com uma autoridade não maior que aquela com a qual a liberdade por si mesma sempre fala. Eu declaro independente o espaço social global que estamos contruindo, independente das tiranias que vocês pretendem impor sobre nós. Vocês não têm direito moral para nos dominar, nem detêm forma alguma de coação a que devamos temer.

Governos têm seus poderes oriundos apenas do consentimento dos governados. Vocês nem solicitaram nem receberam o nosso. Nós não os convidamos. Vocês não nos conhecem, ou conhecem nosso mundo. O Ciberespaço não reside em suas fronteiras. Não pense que vocês podem construí-las, como se fossem um projeto de construção pública. Vocês não podem. Nossas fronteiras são atos naturais, e crescem através de nossas ações coletivas.

Vocês não engajaram-se em nossa grande e agregadora conversa, nem criaram a riqueza de nossos mercados. Vocês não conhecem nossa cultura, nossa ética ou os códigos não-escritos que já provêm à nossa sociedade mais ordem do que a que poderia ser obtida através de suas imposições.

Vocês alegam que existem problemas entre nós que vocês precisam solucionar. Vocês usam essa afirmativa como uma desculpa para invadir nossos arredores. Muitos desses problemas não existem. Onde existirem conflitos reais, onde existirem erros, nós iremos identificá-los e lidar com eles. Nós estamos formando o nosso próprio Contrato Social. Esse governo surgirá de acordo com as condições do nosso mundo, não do seu. Nosso mundo é diferente.

O Ciberespaço consiste em transações, relações e pensamento, dispostos como uma onda altiva no tecido de nossas comunicações. Nosso mundo é um mundo que está em lugar algum e em todo lugar, mas não é onde vive o corpo.

Estamos criando um mundo onde todos poderão entrar sem privilégio ou preconceito de raça, poderio econômico, força militar ou origens.

Estamos criando um mundo onde todos, em qualquer lugar poderão expressar suas crenças, independente do quão singular, sem medo de ser coagido ao silêncio da conformidade.

Seus conceitos legais de propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. eles são todos baseados em matéria, e não há matéria aqui.

Nossas identidades não têm corpos, então, ao contrário de vocês, não podemos obter ordem através de coerção física. Nós cremos que da ética, do esclarecido interesse próprio, e do bem comum, nosso governo irá emergir. Nossas identidades podem ser distribuídas através de várias de suas jurisdições. A única lei que nossas culturas constituentes irão reconhecer será a Lei da Reciprocidade. Nós esperamos ser capazes de construir nossas soluções particulares nesse alicerce. Mas não podemos aceitar as soluções que vocês estão tentando nos impor.

Nos Estados Unidos vocês criaram hoje a lei, O Ato de Reforma das Telecomunicações, que repudia sua própria Constituição e insulta o sonho de Jefferson, Washington, Mill, Madison, DeTooqueville e Brandeis. Esses sonhos irão agora ressurgir em nós.

Vocês estão aterrorizados com seus próprios filhos, já que eles são nativos em um mundo onde vocês serão sempre imigrantes. Porque vocês os temem, se confiam às suas burocracias as responsabilidades paternalistas que vocês são covardes demais para confrontar por si sós. No nosso mundo, todos os sentimentos e expressões de humanidade, da aviltante à angelical, são partes de um todo inteiriço, a conversa global de bits. Não podemos separar o ar que sufoca do ar onde batem as asas.

Na China, Alemanha, França, Rússia, Singapura, Itália e nos Estados Unidos vocês estão tentando conter o vírus da liberdade erigindo postos de guarda às fronteiras do Ciberespaço. Esses postos podem conter o contágio por um curto período, mas não vão funcionar em um mundo que em breve será envolto em uma mídia produtora de bits.

Suas indústrias de informação cada vez mais obsoletas tentam perpetuar a si mesmas propondo leis, nos Estados Unidos e em todo lugar, que reivindicam pelo próprio discurso ao redor do mundo. Essas leis declaram idéias como apenas mais um produto industrial, não mais nobre que um porco de ferro. No nosso mundo, o que quer que a mente humana crie pode ser reproduzido e distrubuído infinitamente, e sem custos. A transmissão mundial de pensamento não mais necessitam de suas fábricas para funcionar.

Essas medidas coloniais de hostilidade crescente nos coloca na mesma posição que aqueles amantes da liberdade e da autodeterminação que vieram antes de nós, que rejeitaram a autoridade de poderes distantes e desinformados. Nós devemos declarar nossos "eus" virtuais imunes à sua soberania, mesmo que continuemos a consentir com suas leis sobre nossos corpos. Nós nos espalharemos pelo Planeta de forma que ninguém poderá deter nossos pensamentos.

Nós criaremos uma civilização da Mente no Ciberespaço. Que ela seja mais humana e justa que o mundo que seus governos fizeram antes.

Davos, Suíça

8 de Fevereiro de 1996



Texto original em:
https://projects.eff.org/~barlow/Declaration-Final.html