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É quase contra as leis da física. É ilógico, irracionalizável, impensável.
Fim de ano é época de stress. O fim do semestre e o término da faculdade, do trabalho, da escola, e as respectivas correrias para conseguirmos cumprir as datas não se comparam ao fim do ano.
- Corre, Marta, o shopping vai ficar cheio demais, a gente ainda tem que fazer a feira da ceia!
- Calma, os meninos ainda não estão prontos!
Natal é o inferno na terra. Já dentro do carro, você percebe que todo mundo deixou pra comprar o presente no mesmo dia que você. O trânsito é caótico, e você já sabia disso, preparado que é trouxe O Senhor dos Anéis 1, 2, e 3, versão estendida, pra assistir no caminho, mas a viagem foi ainda mais longa do que o esperado, deu pra reassistir metade do primeiro filme só dentro do estacionamento, procurando uma vaga.
Dentro do shopping, parece que a cidade inteira está se refugiando da guerra nuclear que está acontecendo lá fora. Correm de um lado pro outro, tensos, cheios de sacola nas mãos, carregando crianças que puxam sempre pra direção contrária que se quer ir. Neste natal, faça-me um favor: pare vinte minutos sentado (se você achar algum lugar pra sentar) num shopping e observe os rostos das pessoas no 24 de dezembro.
O pior é a decoração de natal. Ninguém aguenta mais ver, a decoração está lá desde outubro. Árvores de oito metros de altura, a mesma do ano passado, luzinhas piscando, e piscando, informação, informação, informação, stress, stress, compra, compra compracompracompra. Um papai noel que se interessa mais pelas assistentes gostosas que pelas crianças. Vai dizer que você nunca se flagrou pensando "nossa, a barba desse é de verdade!", ou "ele é gordo de verdade!" ou "ele é branco de verdade!"? Sempre imagino esse pobre desempregado em pleno verão com roupa vermelha de pêlos, gorro e botas vendendo picolé na praia, não sei porquê. Aquelas renas, ursinhos polares, que ficam com aquele movimento macabro parecendo um animal empalhado zumbi. Olha pra um lado... te encara... coça a barriga ("vou te comer, vou te comer") e depois olha pro outro lado. E neve falsa. NEVE FALSA. Algodão. Polietileno. Fibra de vidro. Isopor.
A neve, explico: A Globo preparou muito bem preparado uma receita de filmes, passando por "Esqueceram de mim" e aquele em que Schwarzenegger é um super herói de brinquedo, todos filmes, claro, americanos, pra o seu filho ficar no quilo e te pedir o presente mais caro de todos. E você, numa urgência de não ser a mãe negligente que você é o ano todo, tenta comprar o que for para conquistar o amor do seu filho, e, talvez, a felicidade dele e memórias agradáveis da relação linda entre vocês dois. Só que o menino não vai ligar uma coisa com a outra se ao chegar no shopping tiver jacarandás de plástico, rios artificiais, sprinklers ligados pra simular uma chuva tropical.
- Amor, eu vou pra um lado, você vai pro outro. Você compra os presentes dos homens e das crianças, e eu compro pras mulheres.
- Tá. Não vai estourar seu cartão de crédito.
- Alex, cala a boca.
- Depois não diz que não avisei, ano passado...
- Não vai esquecer da merda do amigo secreto!
- Porra, ainda tem isso.
- Tchau, não demora.
- Tá.
- Mãe, eu quero o boneco do Ben 10.
A estratégia de se separar para que tudo seja mais rápido é velha, e funciona até o ponto em que você não acha nada interessante pra comprar e precisa ligar pro celular do outro pedir ajuda.
- Cheguei, que foi?
- Desculpa, mas é que não consigo me decidir o que comprar pra Tia Graça e Tia Marli. Ia comprar um presente pra cada uma, mas vi esse joguinho de xícaras aqui, tá baratinho. Elas moram juntas, é bom que não precisa comprar dois, o que você acha?
- Amor, suas tias não tomam café!
- Nunca comprei nada pra elas que elas gostassem, não é hoje que eu vou conseguir. Pelo menos eu dei o presente, se elas não gostaram, o problema não é meu.
- E pra que diabos você me chamou aqui, então?
A loja tá foda, e aí vocês se acotovelam. Tem cinco pessoas querendo o joguinho de xícaras pras tias que moram juntas e não tomam café, mas só tem três conjuntinhos na loja. Você precisa sacudir um vendedor pra que ele dê atenção à sua pergunta de se tem garantia. Você enfrenta uma fila maior que a do estacionamento. Você se questiona. Você se pergunta, porque, meu deus?! Promessa de natal é pior que as de fim de ano, e você vai "Ano que vem venho mais cedo", "Ano que vem não compro nada pra ninguém", "Ano que vem fico em casa", "Ano que vem compro um cd do Caetano Veloso pra cada um e fica tudo bem", e sua vida passa diante de seus olhos. E quando finalmente a fila termina, o acotovelamento parece estar acabando, eu vou embora, graças a deus, você se lembra da pergunta tenebrosa:
- Embala pra presente?
- Não.
Puta que pariu.
E a coisa que mais odeio no natal não é o consumismo. Não é o materialismo das relações humanas. Não é o protocolo de ter que dar, correndo o risco de fofocas e do fim da amizade caso contário, um presente pras pessoas, mesmo que elas não gostem. Não é o empurra-empurra. Não é receber presente que eu não gosto. É uma coisa que, cientificamente comprovado, aumenta em 54,32% o nível de stress e em 12,253333[...] o número de suicídios na época do natal: Músicas natalinas. É contra todas as probabilidades um estilo musical cuja MELHOR dentre todas as músicas da categoria seja Simone cantando "Então é natal, o ano novo também". Mas natal é uma época mágica, tudo é possível.
É quase contra as leis da física. É ilógico, irracionalizável, impensável. Mesmo com tudo isso, as repetidas experiências traumatizantes (o que vocês falam disso agora, behavioristas?), as pessoas ainda assim se prezam ao trabalho ridículo de aceitar isso. Centenas de milhares de imbecis fazendo algo que não querem fazer, que não gostam de fazer, que não têm dinheiro pra fazer, que os faz mal.
Toma vergonha na cara, pega essa grana, e vai com sua família prum resort numa praia. Junta amigos, colegas de trabalho, familiares, e vão comprar presentes pra crianças carentes. Ou vá pra casa de sua família e combine de ninguém comprar merda nanhuma, mesmo. Acredite, sua tia não vai te amar mais só porque você comprou a coleção millenium do Belchior.
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Chama-se "Buy-Nothing Christmas", e começou em 1968 nos Estados Unidos com a publicação de um artigo de Ellie Clark e sua família, contra o materialismo da data. Recentemente a idéia foi incorporada pela ong anti-consumista Adbusters, tem site próprio e cresce mais a cada dia. Não temos nada parecido na língua portuguesa, mas nunca é tarde pra começar.
Termino o texto sobre o natal com uma piada plastificada, quase slogan de comercial.
Vamos comprar essa idéia? =D
http://www.buynothingchristmas.org/
Por
Luciano J. Fernandes