sexta-feira, 21 de junho de 2013

 MANIFESTAÇÕES: A FALÊNCIA DA ORDEM E PROGRESSO

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No confronto da força de vontade com a força bruta, ninguém ganhou a batalha.
A exemplo do que acontecia na maioria das grandes cidades do país, polícia e os manifestantes se enfrentaram por horas ontem no centro de Salvador.
E por mais que pareça que não houve nenhum resultado além de muita gente ferida e muito patrimônio (público e privado) depredado, a forma como tudo se configurou nos leva a chegar a algumas conclusões valiosas.
Se por um lado o movimento era desorganizado e bastante inconsistente em suas crenças, reclamações, motivações, se mostrando incapaz de ser vitorioso em aspectos que manifestações comuns geralmente são (chamar atenção para um fato, levantar pautas, exigir mudanças concretas e consegui-las pressionando o governo), por outro lado foi o perfeito demonstrativo de um fato óbvio: "De muito gorda, a porca já não anda". O populismo de dilma e lula não agrada, nem tampouco  coronelismo do neto de antônio carlos magalhães.

A massa consistia em muito mais que os 20 mil ditos pela televisão, e se via e ouvia de tudo. Citações de pokémon, bandeiras da liberação da maconha, dezenas de cartazes contra os famigerados PEC e Ato Médico, comentários de gatos pingados "quero mesmo é que comece logo o quebra-quebra", adolescentes pintando a cara e tirando fotos pra jogar nas redes sociais. "Corrupção" e "educação" era uma rima que pedia pra ser usada.
Nada mais justo, num mundo pós moderno aprendendo a lidar com a descentralização causada pela internet, ter uma manifestação de caráter genérico. A mensagem não era de "20% de reajuste pra não sei o quê", ou "Abaixo a lei nove mil trezentos e não sei quanto", mas um claro e alto "Queremos mudança, e queremos AGORA!". Isso era unânime e nos deu forças até o fim. Forças que se fizeram necessárias.

A passeata alegre e pacífica, saindo do campo grande, se esbarrou perto da fonte nova com a barreira de policiais dispostas a manter a insatisfação bem longe de onde queríamos chegar: as câmeras internacionais do jogo da Nigéria x Uruguai, da copa das confederações.
As primeiras bombas de gás e balas de borracha eram respondidas com gritos de guerra entoando "sem vi-o-lêcia!".
As primeiras pedras, e paus, jogadas contra a polícia, eram respondidas pelo público geral com o mesmo grito, ou uma variação, "sem van-da-lis-mo!". Pena que pelos policiais as pedras foram respondidas na forma de mais bombas de gás e mais tiros.
Aonde eu estava, abaixo do Politeama, os manifestantes ficaram no vai-e-vem por horas, e gradualmente a insatisfação com a injustiça (afinal, o governo deve respeito a nós, ou à fifa?) foi insuflando nos manifestantes, ignorantes do seu real poder, o espírito da violência. Quanto mais atacavam, mais duramente a polícia respondia, e mais indignados ficavam.
Para quem subiu ao Campo Grande ajuntar-se à manifestação pacífica que ainda persistia por lá, o quebra-pau não demorou de chegar. A polícia, fazendo jus ao governo intolerante e ignorante que temos, empurrou os manifestantes pela Joana Angélica, Avenida Sete e Carlos Gomes, e também pelo Politeama acima, encurralando todos no Campo Grande com tiros e centenas de bombas de gás lacrimogênio (nada de "efeito moral", não sejamos hipócritas). Armas de fogo foram disparadas, não pela patrulha de choque, mas por outros membros da policia e do governo.
A multidão que chegou aos montes de volta ao Campo Grande consistia em manifestantes assustados e alguns muitos vândalos enfurecidos que destruíam bancos, semáforos, propagandas, vidraçarias de pontos de ônibus.
A polícia chegou no Campo Grande por todos os lados, destruindo também dali o caráter pacifista da manifestação.
Quem morava perto ouviu tiros e gritos até tarde. O canela chegou a ficar sem energia.

No fim, é claro que a mídia tratou de justificar a ação policial citando os casos de vandalismo e violência contra os policiais, mas o que me é claro, e acho forçoso que se divulgue essa ideia, é que as manifestações surgiram como uma necessidade de catarse da população, que mesmo que não tenha se decidido qual sua luta, e não tenha sabido usar direito do seu poder recém descoberto, agora teve a súbita certeza: "De muito usada, a faca já não corta". O sistema é falho, o dinheiro não traz felicidade, a única coisa que funciona no país é o lucro das grandes empresas, e os governantes são corruptos porque também são frutos de nossa sociedade corrompida. Se o lula e sua corja provaram-se apenas fortalecedores desse sistema, se o acm e seus comparsas amantes da ditadura militar já há muito tempo não são acreditados, resta apenas uma citação do clássico: "E agora, quem poderá nos ajudar?".

Por Luciano J


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O VERDADEIRO PODER DOS MANIFESTANTES


 


O caráter pacífico da manifestação persistiria até o final, como persistiu na manifestação anterior. O vandalismo e violência eram fortemente vaiados.
No fim, quando os policiais já escorraçavam os manifestantes ao redor da praça do Campo Grande, os velhos e crianças já tinham debandado. Os menos politizados, também. Os pacifistas que não foram lá para enfrentar a polícia já estavam em casa tomando suquinho, e os pacifistas que foram, sim, com esse intuito, enfraqueceram-se ao ver a baderna que se instaurava pelo rebanho dos que foram tangidos pela choque desde lá embaixo até ali. Muitos dos pacifistas foram devidamente convertidos à violência pela polícia quando a orquestra de "caminhando e cantando e seguindo a canção" foi acentuada com a percussão de bombas ao pé do ouvido.
É fortemente aceito que quando alguém lhe bate na cara você queira revidar (apesar de eu acreditar, sim, no princípio Jesus-Cristão de oferecer à outra face), mas em casos como esse é necessário que os manifestantes tenham a consciência de suas atitudes numa manifestação.

Primeiro, porque é BURRICE jogar uma pedra em alguém que tem um escudo enorme e está fortemente armado para revidar. Mesmo que ele tenha atacado antes. Por mais que os policiais sejam treinados, o sangue lhes sobe, assim como aos manifestantes, e eles revidam.
Segundo, porque fica lindo para a mídia colocar manifestantes violentos sendo atacados pela polícia: isso invalida a manifestação e enfraquece o movimento. Um único ônibus queimado queima o filme de todos.
Os (bem mais de) 20 mil manifestantes pacíficos sendo atacados pela polícia em plena praça do Campo Grande, porém, coloca em cheque todo o corpo policial, e levanta a questão básica, cuja resposta leva ao início da revolução: A quem ele (o copo policial) serve?

E com "ser pacífico" não entenda colocar flores nos canos das armas. Entenda "saber usar o verdadeiro poder do povo". Nós somos o poder e eles são a minoria. Com a organização certa, conhecimento das armas (vinagre no pano é bom para proteger a respiração do gás, soro é bom para lavar os olhos) e coragem pra avançar, a linha de policiais fica pequena em frente à multidão que avança e destrói sua organização.
É preciso também saber qual o propósito da manifestação: Deixar público o que a mídia não mostra. Pra quem não estava no fogo cruzado, resta acreditar na mentira midiática de que os policiais, coitados, estavam apenas defendendo a "ordem" e tiveram que reagir violentamente em frente a uma manifestação violenta.
Dessa forma, é forçoso aos manifestantes deixar tudo intacto, não destruir nem propagandas da coca-cola. Tirar fotos de tudo, documentar tudo em vídeo, e divulgar os abusos de policiais na internet.

A manifestação em Salvador foi a que teve menos cobertura em mídia nacional, mas em contrapartida foi a mais relevante, juntamente com a de Brasília, por se tratar de algo muito delicado para o governo: o pão e circo da copa e a imagem de "grande país organizado e desenvolvido" que dilma quer pagar em frente à imprensa internacional.

É uma pena que a praça do Campo Grande, destruída na ressaca da manifestação, gere a falsa sensação de que essa destruição é inerente ao movimento (e não uma resposta às ações violentas policiais), e seria levada ao estádio.
Nada mais falso, nada mais falso.

Resta ao movimento agora saber se organizar.
Defender suas causas na forma de setores especializados (saúde, educação, cultura, transporte) e alguns setores gerais (luta contra o PEC 37, propostas de plebiscitalização do governo, ou outras propostas válidas). Sempre com frases afirmativas, como "queremos o passe livre e transporte 24h por dia" ou "queremos uma reforma no sistema educacional nesses, nesses e nesses termos", nunca frases negativas genéricas de "não queremos corrupção" e "não queremos o sistema de saúde como está". Isso para que o movimento não enfraqueça diante das mentiras da mídia de que o movimento se resume em milhares de pessoas nas ruas com roupas coloridas e sem saber exatamente o quê protestam.

Por Luciano J

Avante. 2013 é o ano do fim da infância.

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