quarta-feira, 30 de novembro de 2011

AS AVENTURAS DE UM CORPO NO PAÍS DA ENTROPIA


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São dez e quinze da manhã, exatamente. O arranhão de minha pele vai ser cicatrizado, disso eu tenho certeza. Meu organismo trabalha incessantemente para isso, criando novas células e reestruturando a forma original do tecido, restaurando a unicidade. Meu coração trabalha incessantemente para que o sangue viaje das células de volta para ele; dele, de volta para o pulmão. Eu, que respiro o tempo todo, jogo fora o lixo químico e jogo dentro da máquina mais oxigênio, que vai para o sangue, volta para o coração, vai para as células que estão se regenerando, se multiplicando. Para toda essa operação se faz necessária energia, então de tempos em tempos sou cobrado pelo meu corpo na forma de fome e de sede urgentes, que me fazem comer e beber coisas que não foram feitas para serem comida e bebida. Destroço, desfiguro tudo com as mãos, dentes. Meu organismo corrói tudo embebedando em ácido, aproveita o que julga necessário, joga fora o lixo. E usa tudo para repor as células que inevitavelmente morrem, para exterminar organismos e substâncias intrusas, para, na verdade, evitar que eu derreta com o tempo, evitar que eu me torne outra coisa além de mim mesmo, com as minhas pernas tortas, pêlos nos mamilos, pintas na cara e barba falha.
Mas meu organismo sabe que vive uma batalha perdida. Sabe que luta contra uma entidade da mais poderosa, que recebeu diversos nomes durante os séculos, dentre eles: Entropia. Tempo. Deus. A única saída para o corpo, consciente de que vai perder as forças, definhar, apodrecer, é mais uma vez me utilizar como um de seus soldados células, sangue, coração, estômago, dentes, e controlar minhas vontades. Me fazer ter impulsos, desejos praticamente incontroláveis. Eu vou criar arquétipos, histórias, justificativas, vontades divinas, rituais, mecanismos de auto-afirmação social, válvulas de escape para medos, stress, temores, vou criar leis, vou fundar indústrias, criar arte, música, virar Deus só para engajar-me na batalha secreta de fazer sexo e replicar-me. Admire my son, he's my clone. Quando chegado o momento o sangue será bombeado para o meu pênis, que ficará túrgido, duro o suficiente para penetrar a carne alheia e deixar lá informações de como produzir um outro de mim. O outro organismo, que também deseja replicar-se, entra num acordo com o meu e fornece a si para, metade-metade, formar um novo organismo e continuar a batalha.
São dez e cinqüenta e três de uma manhã de domingo e eu não sei o que fazer com esse esforço todo.

Luciano J. Fernandes

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