quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

 

por John Perry Barlow <barlow@eff.org>

Governos do Mundo Industrial, seus gigantes desgastados de carne e metal, eu venho do Ciberespaço, o novo lar da Mente. Em prol do futuro, eu peço a voçês do passado que nos deixe em paz. Vocês não são bem-vindos entre nós. Vocês não têm nenhuma soberania onde nós nos agregamos.

Nós não temos governos eleitos, nem gostaríamos de ter um, então os escrevo com uma autoridade não maior que aquela com a qual a liberdade por si mesma sempre fala. Eu declaro independente o espaço social global que estamos contruindo, independente das tiranias que vocês pretendem impor sobre nós. Vocês não têm direito moral para nos dominar, nem detêm forma alguma de coação a que devamos temer.

Governos têm seus poderes oriundos apenas do consentimento dos governados. Vocês nem solicitaram nem receberam o nosso. Nós não os convidamos. Vocês não nos conhecem, ou conhecem nosso mundo. O Ciberespaço não reside em suas fronteiras. Não pense que vocês podem construí-las, como se fossem um projeto de construção pública. Vocês não podem. Nossas fronteiras são atos naturais, e crescem através de nossas ações coletivas.

Vocês não engajaram-se em nossa grande e agregadora conversa, nem criaram a riqueza de nossos mercados. Vocês não conhecem nossa cultura, nossa ética ou os códigos não-escritos que já provêm à nossa sociedade mais ordem do que a que poderia ser obtida através de suas imposições.

Vocês alegam que existem problemas entre nós que vocês precisam solucionar. Vocês usam essa afirmativa como uma desculpa para invadir nossos arredores. Muitos desses problemas não existem. Onde existirem conflitos reais, onde existirem erros, nós iremos identificá-los e lidar com eles. Nós estamos formando o nosso próprio Contrato Social. Esse governo surgirá de acordo com as condições do nosso mundo, não do seu. Nosso mundo é diferente.

O Ciberespaço consiste em transações, relações e pensamento, dispostos como uma onda altiva no tecido de nossas comunicações. Nosso mundo é um mundo que está em lugar algum e em todo lugar, mas não é onde vive o corpo.

Estamos criando um mundo onde todos poderão entrar sem privilégio ou preconceito de raça, poderio econômico, força militar ou origens.

Estamos criando um mundo onde todos, em qualquer lugar poderão expressar suas crenças, independente do quão singular, sem medo de ser coagido ao silêncio da conformidade.

Seus conceitos legais de propriedade, expressão, identidade, movimento e contexto não se aplicam a nós. eles são todos baseados em matéria, e não há matéria aqui.

Nossas identidades não têm corpos, então, ao contrário de vocês, não podemos obter ordem através de coerção física. Nós cremos que da ética, do esclarecido interesse próprio, e do bem comum, nosso governo irá emergir. Nossas identidades podem ser distribuídas através de várias de suas jurisdições. A única lei que nossas culturas constituentes irão reconhecer será a Lei da Reciprocidade. Nós esperamos ser capazes de construir nossas soluções particulares nesse alicerce. Mas não podemos aceitar as soluções que vocês estão tentando nos impor.

Nos Estados Unidos vocês criaram hoje a lei, O Ato de Reforma das Telecomunicações, que repudia sua própria Constituição e insulta o sonho de Jefferson, Washington, Mill, Madison, DeTooqueville e Brandeis. Esses sonhos irão agora ressurgir em nós.

Vocês estão aterrorizados com seus próprios filhos, já que eles são nativos em um mundo onde vocês serão sempre imigrantes. Porque vocês os temem, se confiam às suas burocracias as responsabilidades paternalistas que vocês são covardes demais para confrontar por si sós. No nosso mundo, todos os sentimentos e expressões de humanidade, da aviltante à angelical, são partes de um todo inteiriço, a conversa global de bits. Não podemos separar o ar que sufoca do ar onde batem as asas.

Na China, Alemanha, França, Rússia, Singapura, Itália e nos Estados Unidos vocês estão tentando conter o vírus da liberdade erigindo postos de guarda às fronteiras do Ciberespaço. Esses postos podem conter o contágio por um curto período, mas não vão funcionar em um mundo que em breve será envolto em uma mídia produtora de bits.

Suas indústrias de informação cada vez mais obsoletas tentam perpetuar a si mesmas propondo leis, nos Estados Unidos e em todo lugar, que reivindicam pelo próprio discurso ao redor do mundo. Essas leis declaram idéias como apenas mais um produto industrial, não mais nobre que um porco de ferro. No nosso mundo, o que quer que a mente humana crie pode ser reproduzido e distrubuído infinitamente, e sem custos. A transmissão mundial de pensamento não mais necessitam de suas fábricas para funcionar.

Essas medidas coloniais de hostilidade crescente nos coloca na mesma posição que aqueles amantes da liberdade e da autodeterminação que vieram antes de nós, que rejeitaram a autoridade de poderes distantes e desinformados. Nós devemos declarar nossos "eus" virtuais imunes à sua soberania, mesmo que continuemos a consentir com suas leis sobre nossos corpos. Nós nos espalharemos pelo Planeta de forma que ninguém poderá deter nossos pensamentos.

Nós criaremos uma civilização da Mente no Ciberespaço. Que ela seja mais humana e justa que o mundo que seus governos fizeram antes.

Davos, Suíça

8 de Fevereiro de 1996



Texto original em:
https://projects.eff.org/~barlow/Declaration-Final.html

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