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Tremores brutamontes me acordaram e, sem me darem tempo nem mesmo de focalizar na mente onde eu estava e, pior, a questão-mor dos seres vivos, quem era eu, me tiraram de minha casa, que se localizava um galho bem alto da árvore mais bela da ala noroeste da mata. No chão, coração batucando alucinado dentro de meu peito, minutos-séculos se passaram para eu notar que minha castanheira estava destruída, morta, derrubada no chão, ironicamente parecendo repousada, se espreguiçando ao sol.
Andando ao redor pra entender as causas do acontecido, esbarrei-me com algo de couro, que se estendia para cima até certo ponto. A coisa se mexeu, e então eu percebi que era um ser. Tinha a pele lisa, mas, em compensação, o corpo recoberto com peles de cores variadas. Andava em dois pés e empunhava em mãos um monstro que emitia um barulho tão assustador, tão alto, que meus ouvidos só o notaram quando ele cessou, dando ao meu espírito, finalmente, paz, e fazendo o monstro, nas mãos daquela criatura enorme, parar de tremer.
Me escondi atrás do defunto de minha casa, cuidando pra esconder minha cauda peluda de forma que o gigante não me visse. Ele sentou-se numa pedra, enfiou a mão dentro de uma bolsa de sua pele colorida externa (que imaginei ser removível) e puxou alguns objetos. Manejando-os, de repente surgiu fogo, que ele encostou num pauzinho liso branco que ele pôs na boca. Vez ou outra o pauzinho brilhava vermelho como fogo, e da boca do gigante saía fumaça fedorenta. Entediado que estava, a criatura deixou-me entediado, e eu estava pra ir embora, desolado, procurar uma nova casa quando ele se moveu, pegou uma coisa quadrada preta que estava no chão, e girando uma coisinha redonda que ficava grudada nessa preta, liberou som. Inicialmente, um chiado horrível, mas logo tudo organizou-se e pareceu-me que eu estava delirando.
Da caixinha preta saía um som divino, que, acreditem, me fez sentir a luz do sol com os ouvidos. Meu corpo se retesou com a descoberta, e logo relaxou com os outros sons que vieram. O som do verde, o som da cor do vento, o som do cheiro da floresta à noite, o som de Deus, o som de minha infância. Os sons cadenciados me derreteram no ar, os sons finos e grossos se fundiam em minha cabeça e eu notei o som de minha cor. O som de mim mesmo. Eu, então, percebi que eu era som, e voei por aí, nunca mais voltando a ser corpóreo como antes. Eu morri quando virei o som do amor.
Luciano J. Fernandes
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tamus aí!
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